Narrativa concedida a R. Fontes- Especial para "A página Perdida"
“Você acredita que o Saci só existe nas florestas? E se eu disser que ele pode estar rindo agora mesmo em algum beco da sua cidade?”
Das sombras do beco, a figura misteriosa e solitária do Saci se revela, pairando sobre a calçada molhada.
O encontro inesperado
Parecia uma noite comum no meu bairro. O vento soprava forte pelas ruas estreitas, levantando folhas secas e sacudindo as janelas mal fechadas. Eu voltava do trabalho, cansado, quando ouvi algo que me fez parar: um assobio curto, agudo, vindo de um beco escuro.
Não dei importância no início, mas o som se repetiu, cada vez mais próximo. Foi quando o redemoinho surgiu do nada, girando poeira e papéis no meio da calçada deserta. Juro que senti o ar mudar de repente, pesado, quase sufocante.
Um redemoinho misterioso surge do nada em um beco escuro, levantando poeira e papéis, um sinal da presença do Saci na cidade.
Naquele instante, lembrei das histórias que minha avó contava — histórias que eu nunca levei a sério. O Saci Pererê, dizia ela, não estava preso apenas às florestas e fazendas antigas. “Se você ouvir risadas à noite e sentir cheiro de fumaça, corra. Ele também anda pelas cidades.”
Eu não corri. E foi nesse erro que a minha noite se transformou num pesadelo.
O redemoinho que não fazia sentido
O redemoinho apagou de repente, como se nunca tivesse existido. O silêncio que ficou foi ainda mais perturbador. Foi então que senti o cheiro de fumaça, forte, como de palha queimada. Meu coração acelerou.
De dentro da sombra do beco, uma risada curta ecoou. Não era uma gargalhada alta, era um riso abafado, zombeteiro, que parecia debochar da minha hesitação. Meus olhos tentavam se acostumar à escuridão quando o vi: pequeno, ágil, equilibrando-se em uma só perna. O gorro vermelho destacava-se no breu, como uma brasa acesa.
O Saci Pererê, com seu icônico gorro vermelho e cachimbo, observa o narrador com um sorriso astuto das sombras do beco.
Ele não se aproximou de imediato. Ficou ali, saltitando, como se me estudasse. A cada movimento, o barulho do seu cachimbo tilintava, espalhando aquela fumaça espessa que me fazia lacrimejar.
— “Está perdido?” — a voz soou infantil e rouca ao mesmo tempo, impossível de descrever.
Minha boca secou. Eu sabia que ninguém iria acreditar se contasse aquilo, mas estava diante do Saci. Não era lenda, não era conto de avó. Era real.
E ele parecia se divertir com o meu medo.
De repente, o vento soprou novamente. As luzes dos postes piscaram e se apagaram, deixando a rua mergulhada na escuridão. Senti um puxão no meu ombro, rápido, tão forte que quase me desequilibrei. Olhei para trás e não havia nada. Quando voltei os olhos para frente, ele já estava a poucos passos de mim, com um sorriso que congelou meu sangue.
A presença que enlouquece
Não consegui me mover. Era como se meus pés estivessem grudados ao chão. O Saci não precisava me tocar — a sua presença bastava para me paralisar. A cada tragada do cachimbo, a fumaça se espalhava e distorcia tudo ao meu redor. As paredes do beco pareciam se curvar, os sons da rua sumiram, e até o ar se tornava pesado demais para respirar.
Ele começou a rir mais alto, e aquele riso parecia vir de todos os lados. Tampei os ouvidos, mas a risada não vinha só de fora — ela estava dentro da minha cabeça. “Você me vê agora, não vê?”, sussurrou a voz.
Fechei os olhos, tentando negar. Quando os abri de novo, o Saci estava em vários pontos ao mesmo tempo: na minha frente, atrás de mim, nas sombras da parede. Era impossível dizer qual deles era o real.
Senti que ia perder a sanidade. Minha mente gritava para correr, mas meu corpo não respondia. Então, em um instante, tudo cessou. O silêncio voltou, a fumaça desapareceu, e o beco estava vazio como antes. Apenas um gorro vermelho, jogado ao chão, provava que aquilo não tinha sido apenas imaginação.
Peguei o gorro com as mãos trêmulas, mas ele se desfez em pó negro assim que o toquei.
Até hoje, cada vez que escuto o vento rodopiar pelas ruas, sinto o mesmo arrepio subindo pela espinha. Não sei se o Saci voltou para me observar… ou se nunca foi embora.
O folclore que habita a cidade
Relatar esse encontro sempre me parece arriscado. Há quem ria, há quem me acuse de fantasiar coisas após um dia exaustivo. Mas sei o que vi — e sei que não fui o único. Nos últimos meses, moradores do bairro também falaram sobre redemoinhos repentinos, risadas no escuro e um cheiro estranho de fumaça em ruas desertas.
O Saci Pererê pode ser visto por muitos apenas como uma figura folclórica infantilizada, lembrança das histórias contadas na infância. Mas quando o mito atravessa as fronteiras do campo e aparece nos becos e esquinas da cidade, a sensação é outra: ele deixa de ser um personagem distante e passa a ser uma presença inquietante, quase física, difícil de ignorar.
Talvez a lenda nunca tenha sido apenas sobre travessuras inocentes. Talvez o Saci sempre tenha sido o guardião das sombras, adaptando-se aos tempos, às florestas que se transformaram em concreto e às noites em que a cidade se torna tão misteriosa quanto a mata.
E, no fundo, pouco importa se você acredita ou não. O que importa é que, na próxima vez que ouvir o vento formar um redemoinho na rua vazia, vai se lembrar desta história. E talvez, só talvez, escute também a risada abafada de quem nunca deixou de nos observar.
#SaciNaCidade #UrbanFolklore #BrazilianMythology #SaciPererê #MysteryInTheAlley #WorldFolklore




Nenhum comentário:
Postar um comentário