segunda-feira, 13 de outubro de 2025

“O Poço da Vila Jardim: dizem que quem olha demais vê rostos na água”.

  Por R. Fontes- Especial para "A página Perdida"

Poço iluminado pela lua na Vila Jardim, em Roraima, cercado por névoa e silêncio.

Dizem que à noite o poço reflete mais do que o céu — e alguns juram ver rostos na água.

O reflexo que devolve rostos

Ninguém sabe ao certo quando o poço foi cavado na Vila Jardim, em Roraima.

Alguns dizem que foi no tempo em que o garimpo ainda rugia nas matas e os caminhões levantavam poeira na estrada de terra. Outros juram que o buraco já estava lá — muito antes de qualquer casa, como se a vila tivesse crescido em volta dele, atraída e ao mesmo tempo assombrada por sua presença.

À luz da lua, a água parece calma. Mas, segundo os moradores, quem olha demais vê rostos na superfície — sombras que se formam e se dissipam, como se o poço guardasse memórias de quem um dia ousou se aproximar demais.

“Eu vi. Vi claramente o contorno de uma mulher, com os olhos abertos e o cabelo flutuando”, contou-me Dona Marilda, 72 anos, moradora da vila desde criança. “Não era reflexo. Era gente. Ou... o que sobrou dela.”

A história ganhou força nos últimos anos, quando curiosos começaram a visitar o lugar à noite para tentar ver os tais rostos. Alguns filmam, outros apenas observam em silêncio — e há quem saia de lá pálido, jurando que sentiu algo os observando de volta.

Foi essa mistura de medo e fascínio que me trouxe até aqui.

Nas últimas semanas, percorri a Vila Jardim conversando com os mais antigos, visitando arquivos, tentando entender de onde veio o poço, e por que tantos acreditam que ele mostra mais do que deveria.

Mas o que descobri foi algo mais inquietante do que qualquer história de assombração: ninguém, absolutamente ninguém, sabe quem o cavou.

E talvez seja justamente aí que começa o verdadeiro mistério.

A Vila Jardim e seu silêncio antigo

Chegar à Vila Jardim é como entrar num tempo esquecido. A estrada de terra se estende por quilômetros entre lavrados e pequenas faixas de mata. As poucas casas de madeira se espalham pelo terreno como se tivessem sido deixadas ali por acaso, em silêncio, observando o vento que nunca para.

À primeira vista, é só mais uma vila do interior de Roraima — dessas onde todos se conhecem pelo nome e qualquer visitante vira assunto de esquina. Mas há algo no ar. Um tipo de quietude que não é paz, é espera. Como se a vila guardasse fôlego, temendo despertar algo adormecido.

Vila isolada em Roraima, com estrada de terra e casas de madeira sob a luz do entardecer.

O poço repousa no coração da vila, escondido entre casas antigas e o silêncio do lavrado.

O poço fica bem no centro, atrás da antiga escola, hoje abandonada. O chão em volta é rachado e coberto por um musgo que parece crescer mesmo sob o sol forte. “Ninguém mexe ali”, disse seu Almir, agricultor de 58 anos. “Nem pra tirar água. Nem pra plantar perto. O solo não vinga.”

Quando o sol desce e a claridade some, o lugar muda de feição. O vento que passa pelos galhos parece soprar de dentro da terra, e o poço... o poço começa a refletir o céu como se fosse outro mundo virado de cabeça pra baixo.

Dona Marilda me contou que, nos anos 70, os moradores tentaram cobrir o buraco com uma tampa de concreto. “Mas na mesma semana o concreto rachou, e ninguém quis tentar de novo.” Depois disso, o poço ficou entregue ao tempo — e às histórias.

Ninguém mais se banha no riacho ao lado. As crianças são proibidas de brincar nas redondezas.

E, mesmo assim, há sempre um curioso novo que se aproxima.

Talvez por isso a Vila Jardim tenha sobrevivido até hoje: porque, em meio ao medo, há algo no mistério que mantém as pessoas por perto.

O poço — construído com mais medo do que pedra

Não há registros oficiais sobre a construção do poço da Vila Jardim. Nenhum documento, nenhuma data. Apenas versões.

Nos arquivos da paróquia local, encontrei uma menção breve, datada de 1949: “poço comunitário próximo à escola, cavado com ajuda dos moradores — água de boa qualidade, mas de aspecto turvo à noite.”

Turvo à noite.

Essa pequena observação, perdida entre relatórios de batismos e casamentos, foi o primeiro indício de que algo não estava certo desde o início.

Segundo relatos dos mais antigos, o poço foi aberto durante um período de seca intensa. A água do rio Uiramutã estava recuando, e os garimpeiros que passavam pela região deixavam rastros de destruição.

Um grupo de moradores decidiu cavar o poço a algumas dezenas de metros da escola. “A gente cavava, cavava... e a terra nunca acabava”, contou seu Almir, coçando o queixo. “Até que um dia, sem aviso, a enxada sumiu — puxada pra baixo, como se tivesse alguém segurando.”

Poço antigo de pedra com água escura e musgo, símbolo do mistério da Vila Jardim.

            Alguns dizem que o poço foi cavado. Outros, que foi encontrado.

Dois dias depois, a água começou a brotar.

Mas junto dela, veio o silêncio.

Os primeiros a buscar água notaram que o reflexo no poço parecia distorcido. A sombra de quem se inclinava sobre a borda aparecia mais escura, com traços que não eram exatamente os seus.

Crianças começaram a ter pesadelos com rostos sem corpo, flutuando dentro d’água. Um homem, certo de que tudo era superstição, mergulhou a mão para provar o contrário — e jurou sentir algo gelado agarrar-lhe o pulso.

Depois disso, ninguém mais ousou tirar água dali.

“Dizem que o poço não foi cavado”, afirmou um padre aposentado, que pediu para não ser identificado. “Foi encontrado. E talvez o que jorra de dentro dele não seja água.”

Desde então, o poço permaneceu aberto, cercado apenas por estacas de madeira, como se a vila inteira soubesse que fechar aquilo seria inútil.

E o medo, curiosamente, se tornou parte da paisagem.

Depoimentos — quem viu os rostos

“Tem coisa que a gente não deve olhar por muito tempo.”

Foi assim que começou minha conversa com Ronaldo Nascimento, 34 anos, motorista e morador da Vila Jardim desde que nasceu. Ele conta que, certa noite, voltava de Boa Vista quando resolveu cortar caminho pela estrada que passa atrás da escola — e parou diante do poço.

“Não sei explicar o que me deu. A lua tava cheia, e eu vi um brilho dentro d’água. Pensei que fosse reflexo da luz, mas... parecia se mexer diferente. Fiquei uns segundos olhando e vi um rosto. O meu, só que... mais velho. Com o olhar cansado, tipo de quem já viu demais.”

Ronaldo diz que saiu dali sem olhar pra trás. “Depois disso, comecei a sonhar com o mesmo rosto, me chamando de dentro do poço. Já faz quatro anos.”

Homem observa seu próprio reflexo no poço da Vila Jardim sob a luz da lua.

      Alguns afirmam ver rostos estranhos. Outros, o próprio — só que diferente.

Ele não é o único.

Dona Marilda, a senhora que vive na vila desde os anos 50, mostrou-me uma fotografia antiga, tirada em frente ao poço, em um dia de festa. No canto inferior da imagem, um borrão. “Tem gente que acha que é defeito da câmera, mas eu sei o que vi”, disse ela. “Foi nesse dia que o filho da minha vizinha sumiu. Fui a última a ver ele — olhando pra dentro d’água.”

Os moradores contam que, durante o verão mais seco, o nível da água baixa e as formas ficam mais nítidas. Alguns descrevem rostos de homens e mulheres; outros juram ver crianças. “Tem hora que parece que tão flutuando logo abaixo da superfície, chamando alguém pra dentro”, disse Zezinho, um jovem que trabalha com turismo e tenta manter distância do local à noite.

Um pastor da região, que preferiu não ser identificado, afirmou que o poço é “um portal, aberto por quem mexeu onde não devia”.

Já um professor de ciências do município tem outra explicação: reflexos do céu, vegetação ao redor, efeito óptico. “O cérebro humano tende a buscar rostos em padrões aleatórios”, explicou. “Mas...”, fez uma pausa curta, “até hoje ninguém conseguiu gravar nada que explicasse o que o povo vê.”

Nas gravações de áudio que fiz durante as entrevistas, há um trecho curioso. No fim do depoimento de Ronaldo, enquanto ele dizia “foi o meu rosto que vi lá”, um som fraco surgiu no fundo. Um estalo úmido, como bolhas subindo à superfície.

Ou talvez fosse só o vento.

Explicações possíveis — entre a ciência, a fé e a superstição

Nas noites em que o vento sopra do leste e o calor parece se esconder debaixo da terra, o poço da Vila Jardim reflete mais do que o céu.

Alguns dizem que é ilusão. Outros, que é castigo.

Quando pergunto aos mais jovens se acreditam nas histórias, muitos riem. Dizem que os “rostos na água” não passam de reflexos das árvores misturados ao brilho da lua. O professor Arlindo Meira, do colégio estadual, defende que o fenômeno pode estar ligado ao tipo de argila presente no fundo do poço:

“A água pode conter partículas metálicas que refletem a luz de forma irregular. O cérebro humano completa os traços, criando rostos. É um mecanismo psicológico chamado pareidolia — a mesma razão pela qual vemos figuras em nuvens.”

A explicação é plausível. Mas não satisfaz a todos.

O pastor Josué, líder de uma pequena congregação próxima à vila, vê a questão de outro modo:

“Há lugares onde a terra foi manchada por dor. Quando as pessoas cavaram o poço, talvez tenham aberto algo que deveria continuar enterrado. O que aparece ali não são rostos... são lembranças presas.”

Ele afirma já ter realizado orações no local, sem sucesso. “O silêncio volta sempre mais pesado”, diz.

Entre os indígenas da região, há uma terceira versão. Segundo uma antiga narrativa Macuxi, há espíritos que vivem em poços e espelhos d’água, guardiões do reflexo humano. Quando alguém encara a própria imagem por tempo demais, corre o risco de ser confundido com um desses espíritos — e trocado. O reflexo fica, e a alma é levada.

Curiosamente, alguns detalhes da lenda coincidem com os relatos locais: a sensação de ser observado, a mudança súbita no rosto refletido, o chamado quase inaudível vindo de dentro da água.

O que é coincidência, o que é fé, o que é medo — ninguém sabe.

Mas, em um lugar onde o tempo parece andar devagar e o silêncio ecoa mais que o som, é fácil acreditar que a verdade e a superstição se misturam na mesma superfície tremulante.

 O que resta hoje — o poço coberto e o que ainda se ouve

Hoje, o poço da Vila Jardim quase não aparece nos mapas.

Quem passa pela vila dificilmente o nota: está coberto por uma estrutura de madeira velha, cercado por uma cerca improvisada. Alguns dizem que foi a prefeitura quem mandou cobrir, depois que começaram a circular vídeos na internet com pessoas tentando “invocar os rostos”. Outros afirmam que foram os próprios moradores, cansados da curiosidade alheia.

A verdade é que ninguém toca no lugar há anos.

A vegetação cresceu, o mato engoliu o caminho de acesso, e só se vê o topo das estacas apontando como ossos de um corpo esquecido.

Poço coberto por tábuas de madeira, tomado pelo mato na Vila Jardim, Roraima.

       Mesmo esquecido, dizem que à noite o poço ainda se move sob o vento.

Mesmo assim, há quem jure ouvir sons vindos de lá. “É como se a água ainda respirasse”, me contou uma jovem chamada Lívia, que mora nas proximidades. “Às vezes, à noite, escuto um barulho, tipo alguém mexendo num balde, mas quando chego perto... o ar fica pesado. É um som que parece vir debaixo da terra.”

O poço, que um dia serviu para matar a sede, virou um lugar de silêncio.

Ninguém ousa tocar na tampa. Nem mesmo os cachorros se aproximam.

Nos fins de tarde, quando o sol começa a cair atrás das serras e o céu se tinge de cobre, a Vila Jardim adquire um aspecto de espera. As pessoas recolhem as roupas do varal, fecham as janelas mais cedo.

E, por alguns instantes, antes que a noite chegue de vez, há quem diga que a madeira que cobre o poço se move — como se respirasse, ou como se o que estivesse ali embaixo ainda procurasse uma fresta de luz.

Talvez seja apenas o vento.

Ou talvez, como muitos acreditam, o poço da Vila Jardim não tenha sido feito para guardar água — e sim memórias que não sabem descansar.

Talvez os rostos sejam apenas os nossos

De todos os lugares que visitei em Roraima, nenhum me deixou um silêncio tão fundo quanto o da Vila Jardim.

É o tipo de silêncio que parece observar.

Enquanto me despedia dos moradores, parei diante do caminho que leva ao poço. A tampa de madeira mal podia ser vista entre o capim, mas o vento fazia o mato se curvar, revelando brevemente o círculo escuro que ainda marcava o chão.

Por um instante, pensei em ir até lá. Só um passo mais perto, talvez olhar uma última vez.

Mas alguma coisa — instinto, medo, ou talvez respeito — me fez parar.

Pensei em tudo o que ouvi: os rostos, os reflexos, as vozes que chamam. Pensei também nas explicações racionais, nas teorias sobre luz, na pareidolia. Tudo fazia sentido.

E, ao mesmo tempo, nada fazia.

Porque há algo em nós que insiste em procurar significado no inexplicável.

O poço da Vila Jardim pode ser apenas um buraco antigo cheio d’água. Mas também pode ser um espelho — um reflexo das histórias que carregamos, das culpas que tentamos afundar, dos rostos que deixamos de encarar.

Talvez seja por isso que tantos dizem ver algo lá dentro.

Talvez, quando olhamos demais, o que aparece na água não seja um fantasma.

Seja apenas aquilo que tentamos esquecer.

Então, se um dia você passar por Roraima e alguém lhe contar sobre o poço da Vila Jardim, pense bem antes de se aproximar.

A água pode mostrar o que há lá embaixo.

Ou o que há em você.

Reflexo de um rosto distorcido na água, símbolo do mistério do Poço da Vila Jardim.

        Talvez os rostos do poço sejam apenas os nossos — esperando serem vistos.

A escuridão não se apaga com o fim da leitura. Ela apenas espera pelo próximo relato...

Se os rostos do Poço da Vila Jardim ainda ecoam em sua mente, é porque você já sentiu o chamado. O Brasil esconde outros véus, esperando para serem rasgados.

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