Por Renato Ferreira, especial para “A Página Perdida”
Publicado em Crônicas de Medo e Mistérios, 2 de julho de 2025
"As notas não apenas soavam – elas se moviam, como se o ar as carregasse para além do horizonte.'
Entre a fumaça do meu Gitanes e o reflexo torto do rio, ele estava lá. Um velho, curvado como as árvores que o vento molda, tocando uma gaita que parecia chorar com alma própria. As notas não apenas soavam – elas se moviam, como se o ar as carregasse para além do horizonte, onde o sol já desistia de brilhar. Eu, Renato Ferreira, 72 anos de cinismo e saudade, parei. Não por escolha, mas porque algo naquele som me prendeu. Como se ele soubesse de mim. Como se ela estivesse ali, em algum lugar, entre os acordes.
Era uma tarde enevoada no interior de Minas, onde as estradas de terra contam mais histórias do que os homens. Eu buscava uma matéria para "A Página Perdida", algo sobre lendas rurais, assombrações que os locais sussurram entre tragos de cachaça. Mas o que encontrei foi mais que uma história. Foi um mistério que ainda me persegue.
O Som que Não Explica
O velho não tinha nome. Ou, se tinha, não quis dizer. “Chama de João, se quiser,” ele riu, com dentes tortos e olhos que pareciam enxergar através de mim. A gaita, prateada e gasta, tinha inscrições estranhas – símbolos que não eram letras, mas pareciam pulsar sob a luz fraca. Perguntei de onde vinha o instrumento. Ele deu um meio-sorriso, como quem guarda um segredo maior que o mundo.
“Aprendi com um bluesman americano. Veio pro Brasil fugindo. Não sei de quê, mas era coisa séria. Ele me ensinou a tocar, mas disse que a gaita escolhe quem ouve. E ela te escolheu, rapaz.”
Rapaz. Ele me chamou assim, como se meus 72 anos fossem só uma casca. Como se soubesse que minha alma ainda está presa em 1967, naquela noite em que ela fechou os olhos para sempre. O velho continuou, sem que eu perguntasse: “Você já perdeu alguém, não foi? Alguém que ainda te puxa.”
Fiquei mudo. O cigarro queimou até o filtro. Como ele sabia? Eu nunca falo dela. Nem no blog, nem nas noites de bourbon no Ernesto’s Bar. Mas ali, na beira daquele rio sem nome, o velho parecia ler as rasuras do meu diário – aquele que guardo com manchas que podem ser café, sangue ou lágrimas.
Um Segredo Gravado na Gaita
Ele tocou de novo. “Cravo e Canela”, mas ao contrário, como se o tempo estivesse dobrado. Cada nota parecia carregar um peso, um lamento que não era só dele. Perguntei sobre as inscrições na gaita. Ele hesitou, olhou o rio como quem pede permissão, e disse: “São promessas. Algumas cumpridas, outras cobradas. Cuidado com o que você promete, Kid Durango.”
Eu nunca disse meu apelido. Nunca. O frio subiu pela espinha, e o gravador analógico no meu bolso – aquele com a fita “Ela – 1967” – começou a girar sozinho. O velho riu baixo, como se soubesse. “Você já ouviu o outro lado, não é? O lado que não explica.”
Ele sabia de Joaquim. Ou do que chamo de Joaquim – o vulto que me segue desde aquela noite. O velho não disse o nome, mas seus olhos brilharam como se conhecesse o Coisa Ruim pessoalmente. “Cuidado com o que você persegue, rapaz. Às vezes, é ele que te encontra.”
"『Alguns sorrisos não precisam de rostos — ecoam diretamente do fundo do rio.』
O Silêncio que Ficou
Na manhã seguinte, voltei ao rio. Não havia nada. Nem pegadas, nem rastros, nem o eco da gaita. Só o vento, que parecia carregar um sussurro – ou seria ela? No meu gravador, a fita estava em branco, exceto por um trecho: um acorde torto de “Clube da Esquina”, com algo que parecia um choro abafado ao fundo.
"『Alguns segredos não cabem em fitas
cassetes — ou em copos de bourbon.』
Renato Ferreira, 72 anos e incontáveis fantasmas, encara o reflexo do que (ou
quem) deixou para trás em 1967. O gravador está ligado, mas a fita 'Ela' parece
decidida a se auto-apagar."*
Se você ouvir “Cravo e Canela” ao contrário, cuidado. Pode ser um convite. Ou um aviso.
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A última voz dela
17 segundos de silêncio absoluto
Algo que responde quando você desliga o gravador."
Trecho do Diário de Renato Ferreira
18 de junho de 2025, 3h30 da manhã
As margens do rio ainda cheiram a ela. Ou é o uísque mentindo? A gaita não estava lá, mas os símbolos... eu os vi antes. No broche dela, na casa onde a perdi. O velho sabia. Ele sabia. Joaquim estava no reflexo do rio, sorrindo. A fita no gravador está muda, mas juro que ouvi a voz dela. “Volte,” ela disse. Ou foi “Corra”? Manchas na página. Não é café. Não é bourbon. Não sei o que é.
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