quarta-feira, 2 de julho de 2025

O Homem da Gaita: Um Encontro Sobrenatural nas Margens do Rio

 Por Renato Ferreira, especial para “A Página Perdida”

Publicado em Crônicas de Medo e Mistérios, 2 de julho de 2025

"Homem idoso curvado tocando gaita de prata à beira de um rio ao entardecer. Névoa densa envolve as árvores retorcidas, enquanto reflexos distorcidos aparecem na água. A gaita emite fumaça azulada com inscrições misteriosas."

"As notas não apenas soavam – elas se moviam, como se o ar as carregasse para além do horizonte.'

A primeira aparição do misterioso gaiteiro nas margens do rio, onde promessas antigas ecoam nas águas turvas."

Entre a fumaça do meu Gitanes e o reflexo torto do rio, ele estava lá. Um velho, curvado como as árvores que o vento molda, tocando uma gaita que parecia chorar com alma própria. As notas não apenas soavam – elas se moviam, como se o ar as carregasse para além do horizonte, onde o sol já desistia de brilhar. Eu, Renato Ferreira, 72 anos de cinismo e saudade, parei. Não por escolha, mas porque algo naquele som me prendeu. Como se ele soubesse de mim. Como se ela estivesse ali, em algum lugar, entre os acordes.

Era uma tarde enevoada no interior de Minas, onde as estradas de terra contam mais histórias do que os homens. Eu buscava uma matéria para  "A Página Perdida", algo sobre lendas rurais, assombrações que os locais sussurram entre tragos de cachaça. Mas o que encontrei foi mais que uma história. Foi um mistério que ainda me persegue.

O Som que Não Explica

O velho não tinha nome. Ou, se tinha, não quis dizer. “Chama de João, se quiser,” ele riu, com dentes tortos e olhos que pareciam enxergar através de mim. A gaita, prateada e gasta, tinha inscrições estranhas – símbolos que não eram letras, mas pareciam pulsar sob a luz fraca. Perguntei de onde vinha o instrumento. Ele deu um meio-sorriso, como quem guarda um segredo maior que o mundo.

"Close-up de uma gaita de prata envelhecida com símbolos arcanos gravados que emitem pulsação luminosa. Raios de luz âmbar filtram pelas frestas do instrumento, enquanto fumaça negra serpenteia entre seus orifícios. Superfície apresenta marcas de uso e oxidação irregular."

"Os símbolos não obedeciam a nenhum alfabeto conhecido - talvez nem sequer fossem deste mundo.
Esta gaita já acompanhou bluesmen fugitivos, pactos noturnos e agora... você. Algumas melodias nunca deveriam ser repetidas."

“Aprendi com um bluesman americano. Veio pro Brasil fugindo. Não sei de quê, mas era coisa séria. Ele me ensinou a tocar, mas disse que a gaita escolhe quem ouve. E ela te escolheu, rapaz.”

Rapaz. Ele me chamou assim, como se meus 72 anos fossem só uma casca. Como se soubesse que minha alma ainda está presa em 1967, naquela noite em que ela fechou os olhos para sempre. O velho continuou, sem que eu perguntasse: “Você já perdeu alguém, não foi? Alguém que ainda te puxa.”

Fiquei mudo. O cigarro queimou até o filtro. Como ele sabia? Eu nunca falo dela. Nem no blog, nem nas noites de bourbon no Ernesto’s Bar. Mas ali, na beira daquele rio sem nome, o velho parecia ler as rasuras do meu diário – aquele que guardo com manchas que podem ser café, sangue ou lágrimas.

Um Segredo Gravado na Gaita

Ele tocou de novo. “Cravo e Canela”, mas ao contrário, como se o tempo estivesse dobrado. Cada nota parecia carregar um peso, um lamento que não era só dele. Perguntei sobre as inscrições na gaita. Ele hesitou, olhou o rio como quem pede permissão, e disse: “São promessas. Algumas cumpridas, outras cobradas. Cuidado com o que você promete, Kid Durango.”

Eu nunca disse meu apelido. Nunca. O frio subiu pela espinha, e o gravador analógico no meu bolso – aquele com a fita “Ela – 1967” – começou a girar sozinho. O velho riu baixo, como se soubesse. “Você já ouviu o outro lado, não é? O lado que não explica.”

Ele sabia de Joaquim. Ou do que chamo de Joaquim – o vulto que me segue desde aquela noite. O velho não disse o nome, mas seus olhos brilharam como se conhecesse o Coisa Ruim pessoalmente. “Cuidado com o que você persegue, rapaz. Às vezes, é ele que te encontra.”

"Figura masculina envolta em sombra, de chapéu largo, parada no meio de um rio turvo ao entardecer. Seu reflexo nas águas mostra um rosto distorcido com sorriso exagerado e olhos vazios. Névoa azulada envolve troncos de árvores mortas na margem, enquanto uma gaita prateada flutua na superfície da água. Estilo hiper-realista com iluminação dramática."

"Alguns sorrisos não precisam de rostos — ecoam diretamente do fundo do rio.

O Silêncio que Ficou

Na manhã seguinte, voltei ao rio. Não havia nada. Nem pegadas, nem rastros, nem o eco da gaita. Só o vento, que parecia carregar um sussurro – ou seria ela? No meu gravador, a fita estava em branco, exceto por um trecho: um acorde torto de “Clube da Esquina”, com algo que parecia um choro abafado ao fundo.

"Paisagem desolada de rio ao amanhecer com névoa espessa. Águas paradas e turvas refletem árvores esqueléticas na margem. Na beira do rio, uma gaita abandonada parcialmente enterrada na lama, com marcas de pegadas que terminam abruptamente no meio do caminho. Céu cor de chumbo com tons de laranja enferrujado no horizonte."

"Nenhum eco, nenhum rastro... apenas o silêncio que responde às perguntas que não ousamos fazer em voz alta.
O velho e sua gaita se foram, mas a margem deste rio guarda uma verdade perturbadora: alguns encontros não estão destinados a ter testemunhas."*

 Escrevo isso no Ernesto’s, com um bourbon na mão e o peso de um segredo que não sei se quero desvendar. A gaita, o velho, as inscrições – tudo aponta para algo maior. Algo que liga a morte dela, o bluesman fugitivo, e o que quer que seja Joaquim. Minha última matéria está se aproximando, e o Coisa Ruim sabe.

"Homem idoso de cabelos grisalhos, com expressão cansada, sentado sozinho em um bar vintage. Segura um copo de bourbon com gelo na mão direita, enquanto um gravador de fita cassete antigo repousa sobre o balcão de madeira encerada. O espelho atrás dele reflete vagamente uma figura feminina desfocada. Iluminação âmbar baixa cria sombras profundas, com detalhes em couro e latão envelhecido."

"Alguns segredos não cabem em fitas cassetes — ou em copos de bourbon.
Renato Ferreira, 72 anos e incontáveis fantasmas, encara o reflexo do que (ou quem) deixou para trás em 1967. O gravador está ligado, mas a fita 'Ela' parece decidida a se auto-apagar."*

Se você ouvir “Cravo e Canela” ao contrário, cuidado. Pode ser um convite. Ou um aviso.

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*"Fita cassete vintage marrom-envelhecida com etiqueta manuscrita 'Ela – 1967'. Parte da fita está desenrolada e manchada de substância avermelhada (sangue? ferrugem?). Ao lado, um gravador analógico de metal desgastado com o botão 'play' pressionado sozinho. Fundo de madeira rachada com sombras alongadas que sugerem figuras não totalmente humanas."*

"Algumas gravações não deveriam ser ouvidas. Outras se recusam a ser esquecidas.
Esta fita contém três coisas:

A última voz dela

17 segundos de silêncio absoluto

Algo que responde quando você desliga o gravador."

Trecho do Diário de Renato Ferreira

18 de junho de 2025, 3h30 da manhã

As margens do rio ainda cheiram a ela. Ou é o uísque mentindo? A gaita não estava lá, mas os símbolos... eu os vi antes. No broche dela, na casa onde a perdi. O velho sabia. Ele sabia. Joaquim estava no reflexo do rio, sorrindo. A fita no gravador está muda, mas juro que ouvi a voz dela. “Volte,” ela disse. Ou foi “Corra”? Manchas na página. Não é café. Não é bourbon. Não sei o que é.

#MistérioSobrenatural  #CrônicasDeTerror #BluesDoAlém  #JornalismoNoir  #Ela1967 

#PromessasNaGaita


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