sexta-feira, 30 de maio de 2025

A Bruxa (2015): Como o Terror Folclórico Renasceu no Cinema

 "Wouldst thou like to live deliciously?"

Essa pergunta sussurrada pelo diabo em A Bruxa (2015) não era apenas uma tentação para Thomasin, a jovem protagonista. Era um convite sombrio — e sedutor — ao público para mergulhar num terror diferente. Um terror que não se esconde atrás de sustos fáceis, mas que nasce do desconforto, da dúvida e da fé levada ao extremo.

Mais do que um filme, A Bruxa marcou o renascimento do horror folclórico moderno. E quase uma década depois, ele ainda é perturbador o bastante para tirar o sono de quem se atreve a revisitá-lo.

Neste artigo, você vai entender por que A Bruxa se tornou um marco, como o diretor Robert Eggers transformou documentos históricos em pesadelos cinematográficos — e o que isso tudo revela sobre os nossos medos mais antigos.

 Tudo Começa com o Exílio

Nova Inglaterra, 1630. Uma família puritana é expulsa da comunidade por seguir interpretações religiosas “radicais”. Sozinhos, à beira de uma floresta inóspita, William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) veem suas colheitas apodrecerem, o bebê desaparecer misteriosamente, e os filhos se voltarem uns contra os outros. E no centro de tudo: Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha — e a suspeita de um pacto com o diabo.

"A bruxa era real – o filme mostra isso!"

uma família puritana é expulsa de sua colônia por "interpretações radicais da fé"

Até aqui, parece um conto sombrio. Mas o que torna A Bruxa tão diferente?

Autenticidade brutal: Eggers passou anos mergulhado em arquivos de época — desde diários de colonos até registros de julgamentos por bruxaria — para construir uma narrativa fiel ao século XVII.

Terror que nasce da fé: Não há explicações fáceis. Tudo o que vemos é filtrado pela lente da paranoia religiosa. O mal pode estar na floresta… ou apenas na cabeça deles.

Black Phillip: O bode satânico que virou ícone do filme foi inspirado em relatos históricos de possessão animal. Spoiler: ele realmente atacou o elenco durante as filmagens.

"Foi como filmar um pesadelo coletivo do século XVII." – Robert Eggers, em entrevista ao The Guardian

 O Folclore Não Está de Enfeite — Ele É o Próprio Monstro

Diferente de tantos filmes que tratam lendas como acessórios decorativos, A Bruxa leva o folclore a sério. Cada elemento da narrativa ecoa crenças ancestrais que, por séculos, aterrorizaram vilarejos inteiros.

A velha da floresta: Baseada em lendas britânicas que retratam mulheres solitárias como ladras de crianças.

O pacto com o diabo: Retirado de confissões reais nos julgamentos de Salem.

A linguagem: O inglês arcaico não é para parecer bonito. São frases transcritas de documentos autênticos.

Esse cuidado não é preciosismo. É o que dá ao filme a sensação de que não estamos apenas assistindo a uma história de terror — estamos revivendo um medo ancestral.

 O Horror Invisível: Quando o Silêncio Fala Mais Alto

Enquanto muitos blockbusters apostam em jumpscares e trilhas previsíveis, Eggers prefere o desconforto sutil. O horror está no que não vemos — e no que talvez nunca possamos entender.

Silêncio que fere: Na cena do sequestro do bebê, não há gritos. Só o silêncio... e o chão ensanguentado.

A floresta como um labirinto vivo: Filmada com luz natural no Canadá, a floresta parece respirar — e conspirar.

A trilha sonora grita (sem usar voz): Cordas dissonantes criam um fundo sonoro que mais parece um lamento humano.

Cena mais perturbadora:

Thomasin, banhada em luar, dançando nua com outras mulheres na floresta. É libertador. É apavorante. E você não sabe se torce por ela — ou foge.


 “Thomasin dança sob a lua, cercada por sombras e sussurros. É um ritual de libertação… ou de perdição? 

Como A Bruxa Influenciou o Novo Terror

Com um orçamento modesto de US$ 4 milhões, A Bruxa tornou-se um fenômeno cult. Mas seu maior impacto foi abrir caminho para uma nova era do horror.

Filmes que seguiram seus passos:

Hereditário (2018): Trauma familiar + ocultismo = terror psicológico puro.

Midsommar (2019): Paganismo em plena luz do dia. Horror sem precisar da escuridão.

O Farol (2019): Segundo filme de Eggers, claustrofóbico, insano — e igualmente brilhante.

Curiosidades de bastidores:

O bode Black Phillip era tão temperamental que quase arruinou várias cenas.

Anya Taylor-Joy fez o teste por vídeo — e Eggers viu nela “um olhar antigo e assustador”.

Por Que Ainda Temos Medo de A Bruxa?

A resposta não está só no roteiro ou na direção. Está no que o filme evoca:

Medos universais: Isolamento, perda da fé, a sexualidade feminina vista como ameaça.

Ambiguidade que perturba: Há uma bruxa real? Ou é tudo alucinação religiosa? O filme nunca responde. E isso é parte do terror.

Visual hipnótico: A fotografia parece uma pintura antiga — daquelas que você sente que vai te seguir com os olhos.

Epílogo: O Medo Está nos Detalhes (e Dentro de Nós)

A Bruxa não é sobre bruxaria. É sobre o medo que nasce do silêncio, da crença cega, da solidão. É um espelho distorcido de um tempo em que o mal podia ser qualquer coisa — até mesmo uma adolescente com pensamento próprio.

Ilustração sombria de uma bruxa velha com aparência assustadora, cercada por escuridão e atmosfera de mistério, representando os medos humanos como solidão, fanatismo e silêncio.
“Ela não assusta porque é uma bruxa. Assusta porque representa o que mais tememos: o silêncio, a crença cega… e a solidão que nos engole por dentro.” 

Como disse Robert Eggers:

“O verdadeiro horror não está no monstro, mas no que ele revela sobre a natureza humana.”

📌 Próxima Sexta no Blog

Vincent Price: O Arquétipo do Vilão Elegante – Como o Ator Definiu o Terror Clássico

💬 E você, o que acha?

A bruxa era real… ou tudo não passou de uma histeria coletiva puritana? Conta nos comentários.

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