Se você entrar, por acaso ou destino, em algum bar esquecido de Belo Horizonte, talvez encontre uma silhueta magra envolta por fumaça e saudade. Ele estará lá, como sempre esteve: o casaco de couro gasto como armadura, os olhos avermelhados mirando um ponto onde passado e presente se confundem, e o cigarro – sempre aceso, sempre meio apagado. É Renato Ferreira, também conhecido (por ele mesmo) como Kid Durango.
Com 72 anos, mas alma que ainda dança sob luzes psicodélicas dos anos 60,
Renato não é apenas um jornalista. É uma alma penada com uma máquina de
escrever no lugar do coração. Sua vida, um novelo de tragédias,
desaparecimentos, e notas de rodapé com sangue e pó de estrelas. Em seu peito,
pulsa a batida dissonante de uma saudade: dela, a mulher sem nome que morreu
dormindo. Desde então, algo nele quebrou – e algo do outro lado começou a
olhar.
Renato escreve com fantasmas... Literalmente.
Desde a morte dela, sombras o visitam. Algumas cochicham, outras choram. E há uma presença, constante como a nicotina em seus pulmões: Joaquim. Um nome, um vulto, um mistério. Ele o vê nos espelhos, nas fitas antigas, nas entrelinhas das matérias que escreve sobre assombrações em cidades pequenas ou aparições em ruínas esquecidas. É como se cada história que persegue fosse uma tentativa de entender a própria.
Cínico como um personagem de Bukowski, mas ainda sonhador como um verso de
Lô Borges, Renato mistura jornalismo e autoexorcismo. "Este jornal é o meu
revólver", costuma dizer, repetindo a frase como um mantra – ou maldição.
A frase, aliás, é um eco da canção "Durango Kid", de Toninho Horta –
uma espécie de hino não oficial de sua existência. Ele atira palavras,
denúncias, verdades incômodas, sempre em busca de algo que talvez não exista
mais: paz... Ou vingança... Ou os dois...
Seus textos têm cheiro de papel mofado, som de fita cassete e gosto de
uísque barato. Em sua mesa, repousa sempre o gravador analógico, companheiro
inseparável, com uma fita que ele nunca ousou destruir: "Ela – 1967".
Nunca a escutamos inteira. Apenas trechos, distorcidos, às vezes com sussurros.
Em seu diário, entre rasuras e manchas de algo que pode ou não ser sangue,
há passagens que mais parecem delírios ou crônicas de uma sanidade desbotada.
Como esta:
"A casa estava vazia. Vazias também as gavetas, o quarto, o espelho.
Menos a poltrona: ali, ainda morava a marca do corpo dela. Mas não era só isso.
No rádio, 'Cravo e Canela' tocava ao contrário. Joaquim me observava da
varanda. Sorriu. E o frio subiu pelas escadas como um velho amigo."
Renato não acredita em coincidências. Acha que tudo é conexão, fio invisível
que liga a morte da amada a cada matéria de terror rural que cobre. E talvez
tenha razão. Recentemente, em um vilarejo perdido entre serras e neblinas,
encontrou um símbolo que só ela conhecia: um pequeno broche com uma estrela
dourada. Estava em uma casa abandonada e estava quente...
Estava em uma casa abandonada e estava quente...
Sua trilha sonora interior oscila entre a beleza melancólica do Clube da
Esquina e os ruídos inexplicáveis que seu gravador insiste em captar. Às vezes,
em noites de tempestade, ele escuta sua voz. Ou pensa escutar. O que é
realidade quando se vive entre espectros?
O blog "Crônicas de Medo e Mistérios" o acolheu como se fosse lar.
Aqui, Renato publica fragmentos, reportagens inacabadas, cartas para ela, e
confissões que fariam qualquer editor sensato recuar. Mas não ele. Renato sabe
que sua última matéria se aproxima. E o "Coisa Ruim", como ele chama aquilo que o
persegue, também sabe.
Talvez esta seja sua despedida. Talvez não. Mas uma coisa é certa: Renato
Ferreira escreve com fantasmas. E eles têm muito a dizer.
Ouça, se tiver coragem, o áudio final anexado ao post – uma versão
distorcida de "Clube da Esquina", onde sussurros se escondem entre os
acordes. Alguns dizem que ouvir é um convite. Outros, que é um aviso.
Mas quem escreve com fantasmas, cedo ou tarde, torna-se um.
— Crônicas de Medo e Mistérios – onde o jornalismo encontra o inexplicável.


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