Por "O
Cronista do Insólito" BH, Outubro 2023
“Betão não acredita em fantasmas. O problema é que os fantasmas acreditam nele.”
No
universo torto dos becos úmidos, arquivos mofados e café com cachaça, existe um
nome que ainda provoca arrepios em delegacias abandonadas e redações que já não
existem mais: Adalberto Moura, conhecido por poucos como
"Betão", e por muitos como o detetive que se recusou a morrer – mesmo
quando a alma já tinha batido o ponto.
Hoje, aos 68 anos, Adalberto é uma figura que parece ter escapado de um filme noir que
alguém esqueceu de terminar. O terno marrom-escuro, impregnado de décadas de
crimes e desilusões, contrasta com os olhos vermelhos, onde pinga mais amargura
que álcool. Dizem que nasceu em Belo Horizonte, mas ele mesmo prefere contar
que veio ao mundo numa delegacia, envolto em papelada e gritos de preso.
Uma Lenda Entre Cinzas
Adalberto
ficou conhecido no submundo da investigação por dois motivos: sua teimosia
suicida e o caso que nunca conseguiu resolver – o "Crime do
Sacopã", ocorrido no mesmo ano de seu nascimento, 1955. Desde então, carrega
uma espécie de maldição: cada novo mistério ecoa os mesmos padrões do primeiro,
como se a cidade brincasse de repetir traumas apenas para observá-lo fracassar
de novo.
Com uma
personalidade que mistura ceticismo profissional, nostalgia raivosa e um
vício inquietante por perigo, Adalberto coleciona mais marcas no corpo do
que medalhas de honra. Uma cicatriz no queixo, uma garrafa de “Puro Desprezo”
sempre ao alcance, e um tique nervoso que denuncia quando mente – o que,
convenhamos, acontece com frequência.
A Tríade Fantasma: Rogério, Renato e Marina
Por trás
do revólver Taurus .38 que chama de “única amiga”, existe uma rede densa de
memórias que ele insiste em negar. No centro, três nomes malditos:
- Rogério, seu parceiro de farda e
crime, morto de forma estranha em 1989 – e que, de vez em quando, ainda
aparece no espelho atrás dele, com o buraco da bala na têmpora.
- Renato, o repórter que dividiu com
ele a dor de perder Marina, e que agora reaparece com perguntas que ele
preferia esquecer.
- Marina Lopes, a jornalista brilhante que
ambos amaram. Está em uma foto antiga, mas o tempo (ou a culpa) a deixou
borrada.
As Sombras Têm Nome
Nos
arquivos secretos que ninguém ousa abrir e nas garrafas secas que ele esconde
atrás dos relatórios, um padrão começa a emergir. Desenhos de um "S
invertido" aparecem em doze cenas de crime diferentes, todas ligadas a
mortes sem sentido – e todas com alguma conexão com Adalberto. Coincidência?
Ele jura que sim. Mas até mesmo suas mãos trêmulas hesitam diante desse
símbolo.
E então,
há Joaquim.
A figura
sentada no canto, quase sempre fumando, que desaparece quando ele pisca. Um eco do
passado, ou algo muito mais escuro? Talvez Adalberto nunca tenha conseguido
prender todos os culpados. Talvez um deles nunca tenha sido humano...
A Madrugada Que Não Acaba
Na cena
que melhor resume quem ele é, Adalberto está sozinho numa delegacia deserta,
digitando com dedos embriagados numa máquina de escrever que range como um
lamento. O telefone toca. Do outro lado, apenas respiração. Ele sabe: é o mesmo
som da noite em que Rogério desapareceu.
Ele bebe.
Pega a arma. Murmura algo para o parceiro morto.
O
telefone toca de novo.
Adalberto
nunca desliga a linha. Ele só segue atendendo.
O Começo de Uma Longa Descida
Nos
próximos posts aqui no Crônicas de Medo e Mistérios, você vai conhecer
os cadernos perdidos de Adalberto, ouvir áudios arquivados de
investigações esquecidas e, se tiver olhos atentos, talvez encontre reflexos
de Joaquim escondidos em nossas imagens.
Mas
esteja avisado: entrar no mundo de Betão é cruzar um limite invisível entre o
real e o que insiste em não morrer. Entre provas concretas e memórias que
sussurram do outro lado do espelho.
A
pergunta não é se Adalberto vai descobrir a verdade.
A
pergunta é: o que vai sobrar dele quando isso acontecer?
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