quarta-feira, 18 de junho de 2025

Crônica 2 - Pesadelos de São Bento

 Por Renato Ferreira – Especial para “A Página Perdida”

O que une os sonhos de uma cidade inteira?
Quando a mesma música ecoa no sono de desconhecidos, algo está tentando acordar.

Rua antiga de paralelepípedos em uma cidade coberta por névoa densa, com postes acesos e figuras humanas caminhando sob a penumbra.

 Na madrugada silenciosa de São Bento, a névoa parece esconder mais do que casas antigas — esconde os sonhos de uma cidade inteira. (Foto: Reprodução d’A Página Perdida)

Na pacata cidade de São Bento, interior profundo do país, o impossível se tornou rotina. Aqui, onde o tempo parece estagnado entre praças silenciosas e sinos antigos, o terror ganhou voz – e melodia. Meu nome é Renato Ferreira. Sou repórter da Página Perdida, e não acredito em coincidências. Recebi uma ligação anônima que mudou o rumo da minha semana – e talvez da minha sanidade: “Renato, os sonhos são o número da besta. Investigue.” Poucas palavras, nenhuma explicação, mas o suficiente para me trazer até esta cidade onde, estranhamente, todos sonham a mesma coisa.

Ritual sombrio com figuras encapuzadas diante de um círculo de fogo místico onde o número 666 brilha em chamas no céu noturno.

Em sonhos compartilhados, a visão era sempre a mesma: um círculo de fogo e o número 666 riscando o céu como um aviso impossível de ignorar. (Ilustração conceitual – Crônicas de Medo e Mistérios)

Fogueiras. Vozes em coro. O número 666 queimando no céu. E uma música. Sempre a mesma: “The Number of the Beast”, da banda britânica Iron Maiden. O mais surpreendente não é o conteúdo dos sonhos, mas o fato de que pessoas de idades, profissões e crenças diferentes relatam as mesmas visões, nos mesmos horários, com os mesmos detalhes. Fui atrás da origem desse delírio coletivo e descobri muito mais do que esperava. Ou talvez, muito mais do que gostaria.

Dona Lúcia, 78 anos, me recebeu com café e crucifixos. Relatou que sonhou com a igreja da cidade em chamas e, ao acordar, viu o número 666 riscado na porta do templo. Juro: ainda estava lá quando cheguei, apagado às pressas com água benta. 

Mulher de vestido preto parada diante da porta de uma igreja de pedra, onde está pichado o número 666 e o nome “SILUAR CHOVDON”, sob forte neblina.

A porta da igreja amanheceu marcada com o número 666 e o nome “SILUAR CHOVDON”. Testemunhas afirmam ter visto uma mulher de branco caminhando até o local naquela mesma madrugada.

Já Pedro, um jovem entregador de aplicativo, contou que sonhou com um casarão em ruínas — o mesmo casarão que visitei na tarde anterior, na conhecida e irônica Rua do Inferno. Lá, encontrei mais do que paredes quebradas: havia símbolos pintados com algo que parecia sangue seco. Anotações em latim. E um caderno com desenhos que voltariam a me assombrar.

Casarão antigo e sombrio cercado por árvores secas, com fachada imponente e atmosfera misteriosa ao entardecer.

O casarão na temida Rua do Inferno, onde símbolos estranhos foram encontrados nas paredes e no chão rachado. Vizinhos dizem ouvir sons durante a madrugada, mesmo estando vazio há anos.

A dona do Bar São Jorge relatou que, certa noite, uma música começou a tocar sozinha no rádio atrás do balcão. “The Number of the Beast”, disse ela com os olhos marejados. Mas o aparelho, segundo ela, estava desligado da tomada. Coincidência? Interferência? Ou um aviso?

Rádio antigo iluminado em vermelho sobre balcão de madeira em um bar, cercado por garrafas e com ambiente sombrio.

O velho rádio do Bar São Jorge começou a tocar "The Number of the Beast" sozinho, mesmo desligado da tomada. A dona do bar jurou que ninguém o tocou.

Seguindo as pistas, cheguei a uma fábrica abandonada nos arredores da cidade. O local parecia cenário de um clipe dos anos 80: poeira, ferrugem, e no meio da sala, um velho toca-discos girava sozinho. A agulha corria sobre um vinil arranhado — Iron Maiden, 1982. Nenhuma fonte de energia por perto. Nenhum gerador. Apenas o som metálico ecoando entre as paredes e os mesmos símbolos do casarão riscados nas colunas. Tirei o celular para gravar. Ele travou. A tela piscou. E tudo ficou em silêncio por um segundo longo demais. 

Toca-discos antigo tocando sozinho em uma mesa coberta de poeira, no centro de uma fábrica abandonada e iluminada pela luz do entardecer.

Na fábrica esquecida, um toca-discos girava sozinho, ecoando Iron Maiden entre as paredes marcadas por símbolos. Ninguém soube explicar como o som começou… ou por que ele parou.

Conversei com um antropólogo da região, que mencionou a existência de cultos rurais extintos, que usavam música como canal de invocação em rituais noturnos. Ele pediu anonimato. O delegado da cidade, por outro lado, disse que tudo era “invenção da juventude”. Preferiu rir da situação. Já um fã de heavy metal, tatuado da cabeça aos pés, me mostrou uma foto tirada três dias antes: um homem pálido, parado em frente à igreja, usando uma camiseta do Iron Maiden. Não parecia morador. E desde então, ninguém mais o viu.

Homem pálido vestindo camiseta do Iron Maiden diante de uma igreja gótica, cercado por neblina e atmosfera sombria.

Três dias antes do incêndio, ele apareceu diante da igreja. Um forasteiro pálido, parado entre a névoa, vestindo Iron Maiden. Depois disso… ninguém mais o viu.

Ontem à noite, ao preparar minha partida de São Bento, encontrei algo inesperado. Dentro da minha mochila, um papel dobrado. Escrito à mão, com tinta vermelha: “Pare, Renato, ou sonhará para sempre.” 

Uma folha de papel antiga e amarelada com a frase "Stop, Renato, or you drellm forever." escrita em vermelho, em uma mesa de madeira escura com velas acesas ao fundo.

"O papel que transformou a investigação de Renato em algo pessoal."

Não contei a ninguém. Mas durante a madrugada, sirenes soaram pela cidade. Um incêndio irrompeu na mesma fábrica que visitei. As autoridades falam em vandalismo. Alguns moradores dizem que viram sombras dançando no fogo.

Uma fábrica antiga em chamas, com grandes labaredas e fumaça escura subindo em direção a um céu noturno nublado. Silhuetas de pessoas observam o incêndio no primeiro plano.

"Testemunhas observam o incêndio misterioso na fábrica."

Enquanto escrevo esta crônica, algo me inquieta: minha cabeça repete, contra a minha vontade, a melodia de The Number of the Beast. Ouço como se estivesse tocando em outro cômodo, mas não há mais ninguém aqui. O que São Bento me revelou? Será que a cidade acordou? Ou será que eu é que nunca mais vou dormir tranquilo?

Um homem jovem com os olhos arregalados e as mãos na cabeça, aparentando desespero ou alucinação, em um quarto claustrofóbico com paredes cobertas por recortes de jornal. Notas musicais flutuam ao redor de sua cabeça.

"Um eco incessante da melodia amaldiçoada."

Na próxima semana, uma nova investigação sombria nas páginas do nosso blog. Se você já sonhou com algo que não deveria existir, talvez não esteja sozinho.
Acompanhe as Crônicas de Medo e Mistérios. E lembre-se: não é só um sonho… quando todo mundo sonha igual.

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