quarta-feira, 11 de junho de 2025

Crônica 1 – O Chamado do Casarão

Por Renato Ferreira, direto da redação de “A Página Perdida”

Você já sentiu um chamado que atravessa os anos, como uma música que você achou que tinha esquecido, mas que volta inteira na sua cabeça, nota por nota? Eu já. E há dias em que sinto que nunca mais deixei aquele lugar.

Eu sou Renato Ferreira. Setenta e dois anos. Repórter de velharias e mistérios, escrevo da redação silenciosa de "A Página Perdida", um jornal que só sobrevive porque ninguém teve coragem de decretar sua morte oficial. Hoje, os únicos sons aqui são o barulho da chuva fina na janela e o rádio chiando Iron Maiden, como se a fita tivesse grudado no refrão de "The Number of the Beast".

Máquina de escrever antiga em uma redação vintage ao lado de um rádio e pilhas de jornais, com chuva caindo do lado de fora da janela.

A velha redação de "A Página Perdida", onde segredos esquecidos se misturam ao som de fitas antigas e páginas amareladas pela chuva do tempo.

Foi essa música que estava tocando naquela noite, em 1981, quando recebi o primeiro chamado.

Eu estava sozinho, aqui mesmo, fechando uma edição que nunca foi impressa. De repente, o terminal acendeu com um e-mail que não deveria existir. Sem remetente. Sem assunto. Só uma frase:

“Renato, vá ao casarão na Rua do Inferno, nº 666. A verdade espera.”

Computador vintage exibe mensagem misteriosa em inglês para Renato, com uma xícara de café e papéis sobre a mesa.
Na tela de um computador antigo, Renato recebe a mensagem que mudaria sua vida para sempre: "A verdade espera na Rua do Inferno, 666"

Achei que fosse trote. Mas o número — 666 — apareceu como uma farpa na minha memória. Eu já o tinha visto antes. No rascunho de uma pauta antiga. Na farda de um desaparecido. Na parede do banheiro do Bar do Ernesto, escrita a carvão por uma mão que parecia não saber escrever. Ernesto, aliás, nunca existiu. Mas o bar continua abrindo, e gente continua sendo atendida.

Não sei por que fui. Talvez por arrogância. Talvez por saudade do tempo em que o medo parecia uma aventura. Peguei meu Chevette e segui em direção à tal Rua do Inferno, um nome que parece ter sido apagado dos mapas depois daquela noite.

O casarão me esperava. Era uma ruína coberta de mato e abandono. Mas a pior parte era o silêncio — não o silêncio comum, mas aquele que parece conter vozes prestes a sussurrar algo terrível.

Mansão vitoriana abandonada e sombria, cercada por vegetação, com número 666 no portão enferrujado.

A mansão da Rua do Inferno, número 666, exala decadência e mistério — o cenário perfeito para segredos sombrios.

Entrei. O chão rangia como se avisasse: ainda dá tempo de voltar. Mas repórteres velhos nunca sabem a hora de voltar. Desci até o porão com minha lanterna e um gravador que nunca registrou nada daquela noite.

Lá, um círculo de velas consumidas pelo tempo. No centro, um caderno de couro, escuro como carvão molhado. Nele, frases escritas em vermelho:

“O número marca os escolhidos.”

“A música é o portão.”

“Se chegou até aqui, não foi por acaso.”

Quando li a última frase, ouvi — e juro por tudo que é estranho neste mundo — uma voz atrás de mim:

“Você já está aqui.”

Grimório antigo aberto no chão de uma masmorra de pedra, cercado por velas acesas formando um círculo ritualístico.

Antigo grimório cercado por velas acesas em um ritual secreto, oculto nas profundezas de uma masmorra ancestral.

A lanterna apagou. A escuridão me engoliu. Meus passos se confundiam com sussurros. Não me lembro de sair. Só lembro de abrir os olhos no carro, com o caderno no banco do passageiro.

Nos dias seguintes, o número 666 me perseguiu. Aparecia nos trocos, em placas, em sonhos. Eu tentava escapar mergulhando nas reportagens do jornal. Ou nas conversas com o Ernesto — que não existe, mas continua servindo cerveja quente e respostas ambíguas.

Fui atrás de explicações. Um padre me deu água benta e queimaduras leves. Um historiador me falou de rituais satânicos gravados em fitas K7 no casarão. Um fã de Iron Maiden dizia que certos acordes ativam "portais vibracionais".

Mas o pior foi um bilhete, deixado na redação numa noite em que só eu estava aqui:

“Cuidado, Renato. Ele te viu.”

Bilhete de papel envelhecido com a frase “Cuidado, Renato. Ele te viu.” ao lado de uma máquina de escrever antiga em um escritório escuro.

Um bilhete misterioso alerta Renato sobre uma presença sinistra, deixado sobre a mesa de um escritório antigo.

Quem me viu? O homem de camiseta preta que ficava parado do outro lado da rua, sem nunca atravessar? Ou o reflexo nos vidros do casarão, que sorria mesmo quando eu não sorria?

Hoje, com meus ossos rangendo mais do que a escada daquele porão, escrevo esta memória como aviso. Pode ser que o casarão nem exista mais. Mas as coisas que ele desperta... essas continuam vivas.

E às vezes, tocam no rádio.

Semana que vem, continuo essa história. Talvez direto do Bar do Ernesto. Ou de algum lugar onde a lógica ainda tenta resistir ao mistério.

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